Às margens do Ganges

 Varanasi – Índia, 16 de abril de 2011.


Busão até uma cidadezinha perto da fronteira, onde eu já tinha passado quando fui em Lumbini, mais um jeep e depois cruzei a fronteira a pé para pegar outro busão, já no lado da Índia, até aqui. Cheguei na Índia!  Varanasi, a cidade de Shiva, um dos locais mais sagrados da Índia, às margens do rio Ganges. Peregrinos hindus vêm de vários lugares para se banhar nas águas do Ganges. O rio é tão sagrado para eles que muita gente vai até a água se benzer mesmo durante a noite, um dia eu estava voltando para minha pousada umas 11 da noite, pelas escadarias que ficam na margem e vi muitas pessoas jogando água na cabeça e fazendo um tipo de oração. Ambulantes vendendo garrafas de plástico para os peregrinos encherem com a ‘água benta’ e levar pra casa. Detalhe, tudo que é tipo de lixo é jogado n’água, então o rio é muito poluído, o índice de coliformes fecais está na casa dos milhões onde até 500 seria aceitável . Tomar banho vai lá que seja, eu até tomaria mas não deu vontade, mas quando eu vi um bicho morto boiando, acho que era uma cabra, e o tiozão piloto da canoa que eu estava passeando, bebendo aquela água, deu nojo.
Cruzando a fronteira
Entrando na India
Minhas primeiras imagens da India

  A melhor hora para caminhar pelos Ghats – escadarias e portais que dão acesso ao rio – é ao pôr-do-sol que o rio toma uma outra cor, a temperatura está mais amena(tá fazendo um calor do cão por estes lados) e muitos peregrinos vêm acompanhar a cerimônia do puja, um ritual de oferenda ao rio Ganges.
É também um lugar sagrado para morrer, estranho dizer isso, mas conversando com um indiano, soube que muitas pessoas vem para cá passar seus últimos dias de vida. Acompanhei de longe alguns rituais fúnebres, o corpo envolto em panos coloridos é levado numa espécie de maca de bambu ou madeira, depois é banhado no rio e feito algumas orações pelos familiares. O corpo, já benzido, é então colocado na fogueira. Antigas tradições  dizem qual membro da família do falecido se encarrega de atear o fogo para que toda aquela cerimônia seja realmente validada. A cremação se conclui em 3-4 horas e as cinzas são jogadas no rio. Essas cremações são feitas ali, em público, em vários pontos da margem do rio durante todo o dia.
Passeio de barquinho pelo Ganges

Cada fogueira eh um corpo sendo cremado
No Ghat principal
Rituais nas margens do rio
A cerimonia Puja que acontece todos os dias
Pessoas se benzendo com as aguas sagradas
Ghats do rio Ganges

O período que passei no Nepal serviu de preparação para o que iria encontrar aqui na Índia e, de fato, não estranhei tanto. Eu sei que esta é minha primeira cidade, e como vários amigos me disseram, a Índia por ser gigantesca, cada região tem uma característica diferente mas já deu pra ter uma  ideia. O Nepal é uma Índia um pouco mais suavizada eu diria. A religião é a vida dos indianos, talvez porque eu esteja em uma cidade sagrada e passei esses dias na beira do Ganges, mas em todas as direções se respira o hinduísmo.
  Aqui a coisa é mais braba, muito mais barulho na rua, buzina, muuuuita sujeira, muita vaca pastando pelas ruas estreitas do imenso labirinto deixando seus volumosos ‘rastros’ que temos que prestar atenção pra não afundar o pé , muuuita gente dormindo nas ruas, centenas na margem do rio. Muitos pedintes e vendedores que chega a ser cansativo dizer tantos nãos o dia todo. - Hello sirrrr, Riquixá? Marihuana?Haxixe? Good quality! Boat? ... .... Nããããoooo!!!
A Índia é tão... Índia, que mesmo na região onde se concentram as hospedarias nas labirínticas margens do Ganges, não tem nenhum clima internacionalizado e culturalmente estragado pelo turismo, vi sim alguns turistas espalhados pelos corredores, lojinhas e bancas de comida , no entanto a essência que sinto ao andar nestes locais permanece autêntica e forte.

Talher por aqui é coisa de turista. Em uma de minhas andanças, encostei numa barraquinha de rua bem imunda simples(aquelas que minha mão nunca deixaria eu comer alguma coisa), como sempre faço, e pedi um grude que o camarada servia lá onde todos comiam com a mão. Pela primeira vez fiquei sem jeito de estar comendo de colher !! Os caras todos com a mão atolada no prato me olhando, e li o pensamento deles: “olha esse gringo zé mané comendo de colher...” lembrei de uma situação quando estava no interior do Amazonas e vi um paulista amigo meu, tomando tacacá de colher . - Traduzindo para os não-paraenses: tacacá é uma espécie de sopa (que não chamamos de sopa) típica do Pará que tomamos numa cuia diretamente com a boca. Tomar tacacá de colher, para nós, é inconcebível !! - Quando os caras da banquinha me viram usando um talher, fizeram a mesma cara quando vi o paulista. E assim como ele, continuei usando a pazinha, maravilhosa invenção ocidental.
Hoje a tarde dando minha última volta pelas escadarias, um camarada assim como outras dezenas fizeram, encostou em mim perguntando de onde eu era para puxar assunto, e quando disse que era do Brasil ele se admirou(como sempre) e tirou da carteira um bilhete-recomendação escrito por um brasileiro que ele havia conhecido e servido de guia pela cidade. No bilhete dizia que ele era honesto e prestativo, então aceitei a companhia dele para fazer uma visita em alguns locais pela cidade, pois realmente queria alguém que me explicasse alguns costumes indianos e outras coisas que certamente tinham passado despercebidas. Regrinha básica ao viajar pelo exterior : dificílimo existir alguém que nos aborda na rua, que tenha boas intenções, que queira realmente te servir de guia turístico e receber o  valor que  acharmos apropriado. A maioria dos esquemas para enrolar os gringos começa assim, com uma conversa amistosa e bem-humorada para ganhar a confiança e te conduzem para algum golpe ou algum lugar em troca de comissão. Em alguns lugares os marmanjos utilizam crianças como isca. Enfim, infelizmente é assim, nunca confie em alguém que te aborda na rua convidando para ir a algum lugar. Tive uma excessão com aquele camarada lá em Jakarta na Indonésia, que rodou comigo por horas e horas, realmente me servindo de guia e ficou super contente com o pouco dinheiro que lhe dei no final, naquele cara senti bondade e necessidade, mas foi uma excessão.   Pois bem, segui com o cidadão passando por alguns lugares em Varanasi por onde não tinha passado e tirei algumas dúvidas sobre algumas cenas que via pela rua, ele me levou em um local onde se fabrica de forma artesanal e manual umas sedas muito bonitas e realmente muito baratas, daqui elas são exportadas para vários países, entrei numa loja para ver umas peças prontas, lindas mesmo mas não me interessei. No final ele me ajudou a encontrar um passeio de barco bem baratinho pelo Ganges. Ele foi bem sutil ao dizer que aquele era um lugar bem mais em conta para comprar seda e tal, depois queria me convencer a ir  em um Ashram(como se fosse um templo) onde os Babas (gurus)  fabricavam um haxixe de qualidade bem mais barato que nas ruas... vi que era tudo papo furado , disse que não queria comprar nada e ele não insistiu. No fundo, acho que a intenção mesmo era me levar às lojas de seda para ganhar comissão do lojista e para algum vendedor de alucinógeno (traficante é muito pesado) ...confirmando a regra básica. Mas valeu o passeio.   



Producao de seda em teares manuais

Eles vivem com isso na boca, uma mistura de tabaco com umas pastas fortes e adstringentes
Outro Ghat onde fazem as cremacoes
É o país mais barato que já passei até agora, imaginem sentar em um restaurante , e no menu, o prato mais caro custa 1,40 reais(menos de 1 dólar) e pagando 4 reais de acomodação num quarto individual (pouco mais de 2 dólares), tudo é quase de graça. Lembrei de um relato que li um dia desses em um site de mochileiros, um camarada que tinha viajado pela Índia e Nepal gastando uma fortuna pagando 30-40 dólares na diária de hotel, alugando carro com motorista em todas as cidades e fazendo vários trechos de avião( aqui o trem também é quase de graça) e no final ainda disse: “ A Índia é um país difícil de mochilar” . Se isso é mochilar, o que seria o turismo de luxo ?? Mais caro e fácil que isso, só se fosse de helicóptero e jatinho particular!  E outra, aqui todo mundo fala inglês ( a Índia esteve sob domínio britânico até um tempo atrás) então tudo é muito fácil. Na Índia, podemos mochilar(no sentido real da palavra) com um orçamento de 10 a 15 dólares por dia, incluindo os deslocamentos entre as cidades.


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