Missão (quase) impossível


Wadi Rum, 17 de maio de 2011.

Agora estou em uma vila em outro deserto, onde a atração é justamente o deserto. Normalmente a maioria das pessoas que vem visitar  Wadi Rum, no sul da Jordânia, o fazem através de passeios de jeep. Seguindo uma dica do americano que passei uns dias em Madaba (fizemos juntos a trilha no vale de Zarqua Ma’in próximo ao Mar Morto) preferi conhecer o local fazendo um trekking. Tenho cuidado ao pegar dicas de outros viajantes, dou mais importância para dicas de mochileiros que tenham o meu perfil. Já peguei várias dicas de outros mochileiros que não segui porque eram opções mais caras que o normal, e eu achei sozinho coisas mais interessantes para mim. Esse camarada já estava também há vários meses na estrada viajando no mesmo estilo, e resolvi seguir a dica. Ele me avisou que não era moleza, que em muitos momentos teria que escalar a montanha e era realmente perigoso, me aconselhando a não ir sozinho. Mas não achei companhia, então encarei só. Esse dia vou contar mais detalhado pois foi um dia de emoções bem fortes.
A missão era atravessar uma cadeia de montanhas até chegar no outro lado, depois chegando na areia, teria que circular a montanha andando pelas dunas de areia fofa do deserto voltando à vila, o que daria umas 7-8 horas de percurso. O que eu sabia era o somente o ponto de entrada: - Tem um cânion bem largo ao lado da vila, não é esse, é um mais estreito do lado direito, depois segue pelo lado direito. Essas foram as  únicas instruções que ele me deu, me reforçando que era uma trilha bem difícil. Beleza, adoro essas missões. Estudei o mapa do deserto, deixei minhas tralhas numa barraca na vila, enchi a mochila de garrafas de água e comida para aguentar o dia todo, e sabia que iria encontrar literalmente pedreira pela frente.
O acampamento na vila de Wadi Rum

O que tinha pela frente: atravessar essa cadeia de montanhas

A missão já começou tendo que entrar no cânion(vale entre montanhas) subindo por uma parte que precisava realmente escalar. Deixa eu lembrar a diferença entre caminhar e escalar: na escalada temos que usar as mãos nas fendas das rochas para subir paredões verticais ou bem íngremes. Tive que colocar em prática alguns fundamentos que aprendi quando fiz escalada lá no Laos, só que lá foi com cordas de segurança, aqui foi livre sem ninguém para orientar ou ajudar. E fui seguindo. Logo ao entrar no meio de todas aquelas montanhas e ver a areia do deserto de onde parti ficar distante, já comecei a sentir  adrenalina e a ficar maravilhado com tudo aquilo que me rodeava. Estava no meio de um cânion com montanhas de uma escultura tão interessante que sei lá, parecia um outro planeta.
Depois de mais de uma hora passando por trechos muito difíceis, seguindo  o caminho indicado por alguns montinhos de pedras, cheguei em uma parte que não consegui imaginar como eu passaria por ali. Até então a maioria do trajeto exigia escalada mesmo, não foi nada fácil, eu estava adorando, pra mim quanto mais difícil melhor. E cheguei num ponto bem alto que não vi como passar, faltava uns dois metros para alcançar um outro platô onde tinha um montinho de pedras indicando o caminho. Nesse momento foi o ponto máximo de adrenalina. Eu estava bem perto, mas para chegar lá em cima tinha que fazer um movimento por uma parte de inclinação negativa, e as bordas não eram fáceis de segurar, olhava pra baixo e um paredão de uns 30 metros me fizeram tremer as pernas e dar fraqueza nas mãos. Sim, me deu cagaço! Engolia seco a saliva, estava  de pé num batente de uns 5 centímetros seguro numa fenda, tentando ver por onde seguiria, e não achava ponto de apoio nenhum. ... Parei, respirei fundo, uma queda ali não seria nada legal...voltei bem devagar uns dois metros abaixo onde tinha um espaço maior para descansar e pensar alguma coisa. Foi um momento de muita tensão, medo, adrenalina, tudo junto, na beira de um penhasco. Senti um pequeno alívio ao voltar para essa parte mais segura. Não queria desistir depois de ter ralado duas horas para chegar ali. Apertei mais o cadarço dos sapatos, joguei fora dois litros de água da mochila para ficar mais leve e ajustei bem ela nas minhas costas. ...Subi de novo os dois metros, até o ponto onde tinha parado, para tentar novamente, e não vi de novo nenhum lugar seguro em que eu pudesse segurar, o corpo começou a tremer, quando eu olhava a altura que eu estava. Não tenho medo de altura quando estou num lugar seguro, mas no alto de um penhasco onde se escapolir minha mão eu poderia morrer...sim, me deu muito medo. Desisti de uma vez por todas, queria sair vivo dali. Desistir de uma missão quando está em jogo a nossa vida, é uma vitória. Não fiquei nem um pouco me sentindo fraco por não ter conseguido. Era uma passagem muito alta e perigosa, não quis me arriscar. Se tivesse uma corda de segurança, como nas escaladas normais, e não tivesse de mochila nas costas, eu encararia. Porque se não conseguisse era só soltar que a corda me segurava, depois voltava e pronto. Agora se arriscar numa coisa onde se eu não conseguir eu caio e morro, já seria doidice. Sei muito bem o limite entre aventura e insanidade(tá vendo mãe!). Voltei e senti uma alegria enorme em pisar em solo firme outra vez, quase que me ajoelho e beijo o chão igual o papa...rsrsrsr . Estava convencido que tinha feito a coisa certa, convencido que aquelas duas horas até ali e mais duas horas que levariam para voltar eu já me daria por satisfeito, por ter sentido tanta adrenalina e ter curtido todo aquele mundo no meio das montanhas.
Sentei pra descansar e esperar normalizar o nervosismo que passei. Antes de pegar o caminho de volta, passando por uma outra montanha, vi um montinho de pedras indicando um outro caminho, e resolvi seguir... ôpa era uma outra trilha! E fui seguindo...beleza! achei um outro caminho que dava pra passar. Toda essa travessia pelos cânions, eu fiz maravilhado com a arquitetura dessas montanhas. Até que avistei, depois de 3:30h  da partida, a areia do deserto do outro lado. Fiquei muito realizado nessa hora. Atravessei então o deserto, contornei as dunas e antes de voltar pra vila, subi em outras montanhas ‘água com açucar’ no caminho. No alto de uma delas armei minha mesa do almoço e comi olhando todo aquele cenário fantástico lá de cima.
 Percorrer esse trajeto por dentro da cadeia de montanhas, setindo as montanhas nos pés e na ponta dos dedos, suando e procurando trilhas no meio desse imenso labirinto de cânions foi, sem dúvida nenhuma, bem melhor do que vê-las de fora passando num jeep. Essa foi, de longe, a melhor coisa que fiz na Jordânia. De tanto prazer que sinto em fazer esse tipo de aventura, colocaria o dia que fiz a trilha nos cânions próximo ao Mar Morto em segundo lugar e Petra em terceiro(apesar de ser uma Maravilha do Mundo!!).
Gostaria de fazer uma observação para quem vier para estes lados da Jordânia: Não façam esta trilha sozinhos, é muito perigosa e exige alguma habilidade para escalar, é sério mesmo. Serei bem realista, é um trekking/escalada difícil e existe sim risco de morte.  É extremamente contra-indicado para quem está acima do peso, mulheres de unha grande, desajeitados(rsrsrsr) ou quem não sabe administrar bem momentos de tensão. Porque tem umas partes que é preciso segurança nos movimentos... por exemplo, saltar sobre um vão de aproximadamente 1,5m lá no alto ...e para fazer o caminho inverso de volta é mais difícil.  
Pelo meio do trajeto...na foto não se tem ideia
da imensidão do lugar

As rochas de aparência lunática

No meio dos cânions

Em alguns corredores, eu tive que passar igual o Homem-Aranha!

Enfim, avistei o outro lado! Foi uma conquista.

O vale do outro lado e as dunas que atravessei.

Mesa pronta, com vista panorâmica

A vila de Wadi Rum

2 comentários:

eduardoduartejr@hotmail.com disse...

eu heim...

orkutdalili2009 disse...

Lembra do pesadelo que tive nesta semana e te contei que orei por ti no meio da noite...incrível...nunca tinha sentido isso...alívio por acordar e se dar conta que era apenas sonho...acho que foi como voltar do canion e mudar o final da história...
Deus ouviu minhas preces!!!!!!!
Continue conectado com Ele!
Te amo!
Tua mana Lhanne