Alucinações

Hoi An , 07 de janeiro de 2011.

Sentado num quarto de hotel aqui em Hoi An, sozinho olhando para a parede esperando a chuva passar pra sair e dar um rolê. Eu tava escutando Maria Gadu na cama sentindo aquela brisa e um barulho de chuva gostoso. Na janela vejo umas casas com arquitetura bem antiga. Me deu uma palpitação nos dedos, tem hora que fico com uma sensibilidade mais aguçada na ponta dos dedos e escrevo minhas viagens com mais fluência...sei lá. Fiz uma poesia, quer dizer, um conto. Qualquer semelhança com fatos reais, terá sido mera coincidência.

Tu mora em mim

Teu espírito tá dando a volta ao mundo comigo.
Consigo ver todas tuas reações, senti todas tuas percepções diante de todas as situações esquisitas que passei. Vejo a tua aura com nitidez, percebo o significado de qualquer contração de um músculo teu. Vejo o teu suspiro. Sei tudo o que passa aí dentro. Pra mim és transparente. Exatamente o oposto da minha poker face.
Lembra na praia em Mui Ne?  Conversei contigo um tempão sentado na areia, no point do Kitesurf.
Tu tava sentada do meu lado, comendo lagosta e umas ostras assadas na brasa. Era barato lá.
O curso de Kite é muito caro, mesmo aqui no Vietnã, não deu pra ti fazer dessa vez, ainda temos meio mundo pra cruzar.
E quando comi o escorpião em Bangkok!! A tua cara de nojo, quase que tu vomita! Falou que era igual uma aranha horrível e me deu um tapa na costa. Nem conseguiu segurar a câmera pra filmar.Depois começou a coçar teu couro cabeludo e sentir coceira também no pescoço e nos braços, tava começando a empolar.O escorpião foi foda.
Foi gostoso aquele friozinho em Probolinggo e em Da Lat que ficamos embrulhados quentinhos no cobertor. Vi tu sentindo muita dor nos ossos com aquele frio lá na Nova Zelândia, quando esquiamos... tu tremia mais que não sei o quê, mas tinha mais equilíbrio sobre os esquis do que eu. Tu nem caiu quase! e ficava rindo de quando eu caía e me amarrava pra levantar naquela neve escorregadia. – Bora gordinho!
Mas dei a forra na hora da bicicleta...bora gordinha! Tu ficou morta que tive que reduzir a velocidade várias vezes. Que nem quando tivemos que andar quase uma hora com mochila pesada na costa pra achar albergue em Ko Phangan. -Bora gordinha!
Te vejo de vez em quando com mochila do meu lado. E gosto do teu olhar de quem se sente protegida comigo. Tu nunca faria nada disso sozinha, e estaria completamente em apuros e perdida se de repente eu sumisse.  
Ontem mesmo, vi tuas botas de trekking quase escorregando nas montanhas de mármore que subimos , tu tava me pedindo pra segurar na tua mão. Foi muito bacana quando chegamos no topo dessa montanha vendo a praia, as outras montanhas as plantações de arroz e a vila lá embaixo ...depois de ter pedalado vinte e cinco quilômetros...não disse que tu conseguia?
Vibrei junto contigo durante o show de luzes em Hong Kong depois de rir muito da roupa do chineses no metrô...cantamos juntos aquela canção do Chico andando na rua dos cassinos de Macau.  E em Bali, que tu queria ficar um tempo a mais pra aprender a surfar, sem ter noção do perigo daquelas ondas enormes que quebram nas pedras, mas estás aprendendo comigo a aceitar com mais facilidade algumas situações e analisar mais racionalmente algumas coisas que a emoção manda a gente fazer.(Tô gostando de ver tua evolução na racionalidade.)
Eu também queria ter ficado mais tempo naquela praia em Ko Phi Phi, mas deixa guardado na memória, vai ser um motivo pra voltar na Tailândia um dia.Tá bom, a gente pode andar de elefante de novo.
Tá aprendendo também comigo a não deixar se abalar tanto com realidades tristes, o olhar daquelas crianças no Laos e depois o sorriso de esperança daquela senhora no Camboja que eu até bati uma foto, me ajudaram nisso.
Quando estávamos abraçadinhos bem no alto da roda gigante, vendo as luzes de Cingapura lá do alto...tentando lembrar onde tínhamos visto alguma coisa tão magnífica quanto aquela....lembra?
Tá, desculpa por não querer ter pagado hotel na ilha de Redang, as coisas na Malásia são baratas, mas aquela praia na frente...compensou a dormida na rede de baixo dos coqueiros. Diz se não foi legal ser acordada pelos esquilos no punho da rede ?
Fiquei com raiva quando tu perdeu aquele bilhete de metrô em Sydney, tu nunca vai botar essa cabeça no lugar e lembrar onde tu guarda as coisas, ainda bem que tu nunca mais perdeu dinheiro.
Te vi naquele supermercado em Moorea enquanto eu escolhia um óleo com um perfume muito gostoso de flores típicas da Polinésia, tocou uma música legal e te chamei pra dançar. Assoviei e não ouvi resposta. O que foi? Vergonha? Ninguém conhece a gente aqui! Bora dançar no supermercado!
Arroz todo dia, estamos comendo igual pombos, aguenta. Te contei do ceviche que comi lá em Lima, quando comemos aquele na Ilha de Páscoa, era diferente, consegui lembrar de algo que tinha comido a 8 anos atrás .Aquela música Rapa Nui tocada no violão deve ter ajudado a lembrar. 
Aquelas saias coloridas lá daquele mercado em Saigon iriam ficar lindas em ti, mas nessa hora tu não tava lá pra experimentar. Será que vou acertar no tamanho, que tamanho estás agora? É muito colorida ? Mas estamos na Ásia e tudo é mais colorido. Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome...  
Tive que te controlar pra não comprar muita coisa em Ko Tao, e falei que não iria carregar peso esse tempo todo.
Qual é esse filme? "O sexto sentido" Para de ler essas legendas em Vietnamita, minha barriga já tá doendo de tanto rir.

6 comentários:

Luiz Flávio Pamplona disse...

Belo texto! Se qualquer semelhança com fatos reais (sentimentos, emoções reais...) seria mera coincidência, então de onde surgiu tamanha inspiração? Quem seria o oposto da sua poker face??

Fred Mourão disse...

teus textos tão fantásticos. Impressionante como com o andar da carruagem a sensibilidade vai aflorando e se desenvolvendo de uma maneira que não sabemos explicar, mas ela vai saindo de dentro. Acompanho agora tua viagem sentindo o que vc tá sentindo, porque been there done that !!! Só que "vendo" com outros olhos é ao mesmo tempo gostoso, pois "vejo" coisas que não vi antes, que não percebi da mesma maneira, que deixei passar, e ao mesmo tempo doloroso, pela saudade que desperta, dos momentos leves como esse plantando arroz, encontrando crianças, partilhando momentos com os mais velhos, como se fôssemos seus netos - há tempos não vistos. Tua maneira de escrever tem se aprimorado a cada dia, teus textos mais fluídos e claros, assim posso sentir o que sentia, ver o que via e até o que não via. Aproveite cada segundo. A volta pra Matrix é dolorosa.

Rogério Oliveira disse...

Porra seu Fred,
Esses dias me dei conta disso, e acredite se quiser, eu ia te mandar essa semana uma mensagem dizendo que a sua teoria de que as ideias fluem com o tempo...estava certa. A estrada, e essa vida `em transito` nos faz realmente clarear as ideias. E com o tempo conseguimos traduzir isso em palavras mais facilmente.
Cantou a pedra.
Viajei muito contigo, agora relembra comigo!

Rogério Oliveira disse...

Ah! e quanto a minha estadia no Vietnam...nao encurtei, prolonguei! Estou ate preocupado com o periodo do visto que e so de um mes...tenho que correr pois so tenho uma semana para Hanoi, Halong bay(nesse frio!) e Sapa.

Laurindo disse...

Meu amigo que orgulho eu tenho de você!!!
Eu estou imprecionado com suas reações em relação as sentimentos, emoções e principalmente oa inesplicavel.
Sua forma de escrever é clara, facil e dar ao leitor uma exatidão, uma precisão cirurgica das coisas de que você falar e senti é como se estivessemos do seu lado na viagem ou como se você estivesse do meu, pois a senssação é tão forte, tão presencial que parece que você é que tá nos acompanhando, parece que você narra o que está vendo agente fazer.
sempre soube que você era muito talentoso meu amigo pra praticamente tudo que eu já te vi fazendo, mas você ainda consegue me surpreender.
Parabéns!!!

Tati disse...
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