O índio e o playboy


Şile - Turquia, 29 de junho e 2011.

Em uma das noites no terraço do albergue em Istambul, onde nos reuníamos para fumar um narguilé e curtir a magnífica vista da Aya Sofia de um lado e o Bósforo do outro, conversando com um camarada canadense, ele disse que estava indo para uma cidadezinha de praia ao norte de Istambul, na beira do mar Negro, para passar uns dois dias dormindo na praia. Em questão de segundos resolvi ir com ele, adoro esses programas de índio!, e combinamos pra sair cedo no dia seguinte. Aconteceu muito isso durante minha viagem, de estar meio indeciso de que cidade rumar e quando alguém sugere algum lugar eu resolvo ir num estalar de dedos. Acho que isso é meio comum quando se está fazendo uma volta ao mundo. Quase todos os camaradas que conheci pelo caminho que estavam viajando do mesmo jeito, tinham dúvida quanto ao itinerário. Acho que isso é bom, viajamos sem estresse de saber o dia de partir, às vezes uma viagem na correria com todas as passagens compradas e hotéis marcados, chega a ser cansativa. Quando estamos em uma cidade sem saber quando vamos seguir, conseguimos relaxar mais, a cabeça fica mais sossegada.
Primeiro cruzamos o Bósforo num dos barcos turísticos, foi um passeio bem bonito ver Istambul de outro ângulo, passando sob as pontes que ligam o lado asiático do europeu, os bonitos palácios, casarões e mesquitas nas margens do caminho. Esse outro lado da cidade tem um clima bem agradável, muita gente cruza para cá para almoçar nos restaurantes à beira do canal. Depois de dois ônibus e uma caminhada chegamos na tranquila Şile (sim, com cedilha no S...lê-se Chile), uma cidadezinha  pacata e bem mais ‘turca’ ... é uma das cidades de praia onde o pessoal de Istambul vem passar feriado, mas como ainda não começou bem o período de férias, está vazio ainda por aqui.
Na saída de Istambul

Cruzando o estreito de Bósforo, essa é uma das pontes que
liga o lado asiático do europeu

Pelo caminho

Numa tranquila rua de Şile

A praia é bonitinha, tem umas pedras que ajudam a dar uma vista legal, pra não perder o costume escalei uma montanha lá da praia para ver o mar Negro(que não tem nada de negro como o nosso rio Negro do estado do Amazonas) e pegar um vento lá de cima. Ao anoitecer, disse pro meu camarada que aquela praia estaria boa pra nós passarmos a noite como ele disse que ia fazer. Mal ele sabia que eu tava a fim de dormir na praia de verdade! Acho que ele falou que ia dormir na praia na noite anterior pra dar uma de “moleque doido” e achou um mais doido que ele! Como num jogo de pôker...ele blefou sem ter jogo na mão, e eu paguei pra ver...Ele desconversou e fomos procurar um hotel....pra compensar ele pegou um quarto que seria o mesmo preço uma ou duas pessoas, e me deixou dormir de graça. Como era ele que tava pagando,  fiquei com o tapete!
Meu parceiro 

Na montanha da praia

Şile

Descansando depois do vôlei

Nesta noite me permiti um jantar num restaurante com vista pro mar, a Turquia não é tão barata quanto outros países na Ásia, tem os valores equivalentes aos nossos, mas mesmo assim pode-se ter um bom jantar por menos de 10 reais, talvez metade ou um terço do valor se fosse no Brasil. O conceito de caro e barato muda sensivelmente de acordo com o tipo de viagem que está se fazendo(e é claro, em relação à situação financeira da pessoa e do país que ela vem). Em viagens curtas de até 1 ou 2 meses, já se vai com o dinheiro separado e todos os gastos estão previstos no planejamento prévio. Já numa viagem mais longa a coisa muda, e qualquer economia é importante para a continuidade da viagem. No outro dia passamos o dia na praia, já de tarde o meu parceiro, que depois vi que ele tava mais para playboy de mala de rodinha... se mudou  para o hotel mais caro da cidade(120 reais a diária), ainda fiquei na piscina com ele, mas como não tinha tapete pra mim...peguei as trouxas e voltei pra Istambul. Na mesma noite peguei outro busão e segui viagem.

3x4

Istambul – Turquia , 27 de junho de 2011.

Em questão de dias, saí da África passei pela Ásia e agora estou na Europa. Foram 3 continentes em 4 dias! Cheguei no  quinto continente da minha viagem. A Turquia, assim como o Egito, também está dividida entre dois continentes, uma parte na Europa e outra na Ásia, e também é de maioria muçulmana(mas não é árabe). Aqui a religião é seguida de forma bem mais branda, dificilmente vemos mulheres com o corpo todo coberto e não são todas as mulheres que usam o véu cobrindo a cabeça, as poucas que vemos usam lenços coloridos e não abrem mão da maquiagem e de uma roupa mais ocidental.
Eu estava sentindo falta do clima de albergue, apesar de ter ficado em um bem bacana no Sinai, mas a maioria lá eram coreanos e japoneses...um pessoal meio ruim de se misturar. Logo que cheguei aqui já tarde da noite, fiquei num quarto com 30 camas, e tinha uma galera se arrumando pra ir em um ‘night tour’ pelas boates, foi só o tempo pra eu trocar de roupa e me meti na galera, éramos uns 20. Fomos numa região bem agitada cheia de bares e boates...lá pela terceira boate, eu e mais uns seis decidimos abandonar o grupo para poder ficar nos bares de música ao vivo. A música turca é muito gostosa, eles tocam geralmente com dois violões e um violino ou com um instrumento de cordas que tem  um braço longo e um som muito bom. Gosto muito desse clima entre membros da irmandade mochileira, temos pensamentos comuns, do tipo, sempre procurar coisas mais culturais e autênticas do país e aproveitar isso da forma mais barata possível. Foi uma noite muito bacana, ouvimos e dançamos muita música turca antes de voltarmos nós sete  amontoados em um taxi de volta para o albergue às 6 da manhã!
No meio dessa galera tinham dois holandeses que estavam viajando de bicicleta, já pelo meio do caminho entre a Holanda e a China. Mais uma vez, atiçou minha curiosidade para fazer uma viagem de bicicleta e barraca. Do jeito que me conheço, tenho certeza que uma hora eu faço uma trip dessas. Senti como deve ser uma viagem desse tipo pela liberdade de locomoção quando viajei com minha bicicleta desmontável por três meses entre o Laos, Camboja, Vietnã e China, e ano passado quando rodei pelo Rio de Janeiro e Angra. Um dia eu faço um outro relato do tipo ‘pedalando pelo mundo’...
Istambul é uma cidade muito bonita, ela tem uma combinação bem atrativa: os iates, ferry boats e cruzeiros que cruzam  o estreito de Bósforo, o modernismo europeu, gente bonita, comida muito boa, um sistema de metrô de superfície que facilita  bastante a locomoção interna além de dar um toque de sofisticação nas ruas e uma música instrumental de muito bom gosto que frequentemente ouvimos nas ruas. Alguns lugares bem interessantes de se visitar também. Nenhum imperador da China, marajá da Índia ou faraó do Egito deixou para nós apreciarmos riquezas tão impressionantes como os sultões otomanos deixaram e pude ver de perto no palácio Topkapi...tronos e objetos cobertos de ouro e diamantes...até a jarra de água do sultão era cravejada de pedras preciosas. A imponente Basílica de Santa Sofia(que virou mesquita e agora é museu...) e sua irmã mais nova Mesquita Azul têm histórias interessantes e são grandiosas tanto por fora quanto por dentro.
Pátio interno da Mesquita Azul

Minha primeira imagem quando cheguei em Istambul,
a Basílica de Santa Sofia (Aya Sofia)

No interior da Mesquita Azul

Saindo da Mesquita Azul, e a vista da Aya Sofia

De novo ela, a Aya Sofia

Outro dia , num domingão, fui andar pelo bairro de Taksim, ao descer do metrô na praça Taksim tava rolando uma parada gay, cheio de gente de tudo que é tipo batendo tambores e dançando com as bandeiras coloridas do movimento GLBT. Há algum tempo também não via a liberdade de expressão exposta assim nas ruas,  os últimos países que passei a homossexualidade é proibida ou rigidamente banida.
Bom, vou continuando meu passeio pela Turquia, saboreando algum döner ou um  kebap,  e tomando um chá, que aqui é chamado çai , lê-se tchai ( igual como se fala na Índia ) ...

Domingão, os turcos tomando banho de mar, pescando,
fazendo churrasco, pique nique...

Parada gay no bairro Taksim

Vista do palácio Topkapi
   






Volta ao começo


Amman - Jordânia, 24 de junho de 2011.

Voltei a Amman capital da Jordânia, para pegar meu próximo voo para a Turquia. Foi minha primeira cidade que conheci no mundo árabe, e agora a última. Gostei voltar para o começo,  comparar a forma com que estou vendo a cidade agora, àquela que vi 46 dias atrás. Tive tempo para ver muita coisa e ter um contato muito mais próximo com os costumes árabes e muçulmanos nesse meio tempo. Um parêntese: árabe é a denominação de um povo e de uma língua, muçulmano é relacionado à religião , os que seguem o islamismo. Islâmico e muçulmano são sinônimos, se referem ao islamismo(ou islão).
Uma outra coisa que descobri que me interessa bastante é o entendimento das religiões. É quase impossível passar alguns meses pela Ásia e não se envolver em assuntos religiosos, pois aqui é a religião que dita as regras e os costumes da sociedade. O islamismo, budismo e hinduísmo são as religiões  mais dominantes no continente asiático e a devoção do povo é bem mais evidente aos olhos de quem está de passagem por aqui, pois modifica o modo de vida e o comportamento das pessoas. Eu não me tornei  religioso, e sim mais curioso em relação ao tema. Me interessa saber sobre a crença dessas bilhões de pessoas para poder entender o comportamento deles em vários locais por onde tenho passado.
Os muçulmanos oram pelo menos cinco vezes por dia, as mesquitas entoam um chamado através dos alto falantes, chamando as pessoas para a reza. Eu ouvi pela primeira vez esses chamados nas mesquitas na Malásia, que também é um país do sudeste asiático de maioria muçulmana, e eu achava um barulho estridente. Depois de passar esse tempo pelo mundo árabe ouvindo esses chamados várias vezes , até acho bonito pela melodia agradável. É um trecho do alcorão que é recitado por alguém com uma voz boa, e o canto significa algo do tipo:
 Allah é o maior
 Eu testemunho que não existe outro deus senão Allah
 Eu testemunho que Maomé é mensageiro de Allah
 Venha rezar! Venha para a salvação!
 Allah é o maior
 Não existe outro Deus senão Allah.

Durante do chamado quem está passando por perto de alguma mesquita, apressa o passo para entrar e orar.
Desde que fui na Malásia a uns 9 meses atrás venho lendo alguma coisa sobre o islamismo, por uns folhetos que peguei numa mesquita em Kuala Lumpur, e alguns livros que são distribuídos em várias línguas para o entendimento das crenças islâmicas. Me interessei até para quebrar a ideia que temos que os muçulmanos são todos loucos, de que são todos homens-bomba em potencial. Existem sim os extremistas e os loucos, mas são uma minoria. Não podemos discriminar os outros milhões que levam a sua religião de forma pacífica e bem dedicada. Em quase todas as repartições ou locais públicos, existe um local para a oração, que é sempre voltado para Mecca - o local mais sagrado do islão- com tapetes onde eles se ajoelham e oram. Em dias especias e nas sextas-feiras, as pessoas se reúnem nas ruas, fazendo orações em grupo,  mostrando sua devoção a Allah, que para eles é o deus único, incomparável e o único criador do Universo.
As palavras de Allah foram enviadas para o profeta Maomé (que era analfabeto!)e estão no livro sagrado, o alcorão. Eles também acreditam em outros profetas (mensageiros) da palavra divina como Ismael, Isaac, Moisés, Davi, e ...Jesus ! Sim eles acreditam em Jesus (assim como os Judeus também acreditam) como sendo um profeta, acreditam também que o seu nascimento foi através da Virgem Maria e eles O respeitam bastante, inclusive Jesus é mencionado no alcorão mais de uma centena de vezes.
E eles crêem também na veracidade da forma que todos os outros livros sagrados foram enviados, como o Torá dos Judeus, os salmos de Davi e as mensagens de Jesus.     Mas para eles os profetas, sendo o principal o Maomé, são apenas mensageiros e não são exaltados. Maomé afirmou que não queria ser venerado, somente Deus(Allah) deve ter esse mérito. Diferente no cristianismo onde Jesus, o profeta, é colocado no mesmo patamar de um deus. Descobri que gosto desse tema, de comparar, ver as contradições, as diferentes interpretações das mesmas palavras e o reflexo de tudo isso nas sociedades.

O homem move montanhas

Entre Luxor, Aswan e Abu Simbel - sul do Egito, 21 de junho de 2011.

Os egípcios atigamente parece que não tinham muito o que fazer, passavam o dia inteiro esculpindo estátuas, templos e fazendo e desenhos entalhados nas rochas. Os hieróglifos foram os precursores da escrita através de símbolos que mostravam a vida dos faraós, culto aos deuses e outras mensagens para a posteridade. Nesses 5 dias que passei entre Luxor, Aswan e Abu Simbel no extremo sul do Egito (perto do Sudão), visitei templos magníficos. Entrar em uma das cavernas cheias de hieróglifos num silêncio ensurdecedor, ficar de frente para toda essa riqueza muito bem preservada,  é uma sensação extraordinária.
Em Luxor os impressionantes templos de Luxor e Karnak, com enormes blocos de pedra no alto de colunas muito altas tipo 20-25 metros me deixaram muito curioso como eles colocaram aquilo lá no alto ...no braço!
Templo de Luxor...Como os caras carregaram isso ???

Esculturas muito nítidas por todo o templo

Ramsés no Templo de Luxor

Uma entre as dezenas de esfinges que protegem o
Templo de Luxor
Os guardiões na entrada do grandioso templo
Pilares no Templo de Karnak- Luxor

Entrada do Templo de Karnak

 No Vale dos Reis estão os túmulos de dezenas de faraós, que são como túneis que levam à sala principal onde está o sarcófago, todo cheio de desenhos  muito coloridos mostrando toda a devoção que eles tinham pelos deuses. Os faraós eram colocados em seus sarcófagos com vários de seus pertences, pois eles acreditavam que precisariam entrar no céu com toda sua riqueza.

 O Vale dos Reis fica na margem oposta do rio Nilo, do outro lado de Luxor. Quase todo mundo visita através de passeios organizados pelos hotéis, o que eu evito ao máximo. Basta analisar o mapa, as distâncias e formas de transporte disponíveis. Aluguei uma bicicleta e fui sozinho, foi até melhor porque fui parando em outros lugares pelo caminho entrei em um templo muito bacana de graça e fico o tempo que quero. Outra coisa que me incomoda é saber que tenho um tempo determinado para visitar um lugar e saber que tem alguém me esperando. Fazendo sozinho, eliminamos o dinheiro que o hotel/agência ganham por fora. Serve pra vários tipos de passeio em qualquer lugar do mundo. É só saber bem como é o trajeto e o que inclui, e ir direto sem intermediários que encarecem o passeio. Quando envolve alguma atividade como passeio de camelo, elefante, barco ...sei lá,  é só ir direto na fonte que pagamos baratinho. Geralmente os agentes muito ganham mais do que os caras que fazem a coisa. Por exemplo, em Pai na Tailândia todas as agências oferecem os passeios de elefante, mas se pegarmos uma bicicleta ou moto e formos direto na fazenda onde eles criam os elefantes, pagamos baratinho. O mesmo para os passeios de camelo na Índia. Aqui em Luxor o cara ofereceu um passeio de feluca (barcos a vela) pelo rio Nilo por 75 EP, fui na beira do rio e paguei 20 pra fazer o mesmo.
Vale do Reis - Luxor

Tumba de Ramsés VI 

 Isso faz muita gente se assustar, com preços apresentados por agências, pensando que viajar é muito caro. Todo mundo se assusta quando digo que pago 3- 5 reais numa diária de hotel, e gasto 10 reais para comer por dia, ou menos, em alguns países. Conversando com um amigo pela internet esses dias, ele disse que sonha em conhecer a Tailândia mas os pacotes eram muito caros. Eu disse pra ele se preocupar só com a passagem, que aqui “nós é rei” como disse meu amigo gaúcho quando estávamos esbanjando num restaurante em Ko Phangan na Tailândia e gatando uma mixaria. Eu devo estar sendo repetitivo nesse assunto, mas é de propósito, pois um dos objetivos deste blog é divulgar a cultura mochileira e quebrar a ideia de que viajar é perigoso, difícil ou caro. O importante é falar inglês, o resto fazemos como se estivéssemos no Brasil, sem mistério nenhum. Experimente passar numa agência de turismo de sua cidade, e veja quanto custa um passeio na sua própria cidade ou estado, e faça as contas, já que você é morador local e conhece todos os caminhos e meios de transporte de sua cidade, quanto gastaria para fazer o mesmo passeio sozinho. Com certeza vai ser beeeem mais barato. Por quê? Porque você tem informação. Em outros países é a mesma coisa, porém temos que buscar essa informação, seja em guias, internet ou com algum morador local. Várias vezes fiz esta pergunta para um habitante da cidade: como você faria para visitar aquele lugar? Então, com a informação pode-se chegar em qualquer lugar.
Rio Nilo em Aswan

Aswan

As felucas no rio Nilo em Aswan

Um lugar que impressionou muito nessa região foi Abu Simbel, templos esculpidos na rocha, com estátuas de 20 metros na frente e o interior do templo cheio de desenhos esculpidos na rocha com uma nitidez e cor tão vivas que parece que acabaram de fazer. Abu Simbel impressionou muito também não só pelas relíquias deixadas pelos egípcios a milhares de anos, mas pela capacidade e tecnologia da engenharia moderna. Tem dois templos esculpidos em montanhas que ficavam na margem do rio, e com a construção de uma represa no local, as duas montanhas foram transplantadas para um local mais alto!!!! IMPRESSIONANTE ver uma motanha cortada em cubinhos e colada em outro local. Comprovei que teoricamente a fé remove montanhas. Mas na prática... sem guindastes, instrumentos ultra modernos e uma equipe de engenheiros de ponta...não sei não.
Abu Simbel

Uma das montanhas que foi transplantada



A chave da vida....tem muito esse símbolo nos hieróglifos


Terras de Alexandre


Alexandria - Egito, 17 de junho de 2011.

Norte do Egito, nas margens do Mar Mediterrâneo, fundada por Alexandre o Grande, um grande conquistador que dominou boa parte do Oriente Médio juntamente com seu exército durante uma jornada de uma década explorando e conquistando territórios no médio oriente.... Alexandria foi uma das cidades mais importantes da antiguidade ( Cleópatra passou seus últimos dias de vida aqui...), sendo capital do Egito por mil anos e um grande centro de conhecimento da época. A Biblioteca de Alexandria que existe desde antes de Cristo foi uma das mais importantes instituições do mundo antigo. Aqui também tinha o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo que hoje não existe mais. O Museu Nacional de Alexandria é pequeno mas interessante, expondo várias peças encontradas no fundo do mar. Ainda hoje, existem estátuas e outros achados submersos, talvez seria um mergulho legal por aqui, mas soube que a visibilidade do Mediterrâneo é muito ruim então nem me animei.
O mar Mediterrâneo

A Biblioteca de Alexandria, hoje com uma arquitetura futurística

Em frente ao Museu Nacional de Alexandria

Na chegada , eu sentei numa barraquinha de lanche no terminal de ônibus e perguntei o preço do sanduíche de fígado, bem comum aqui junto com o de miolo de boi. O cara era fanhoso, e disse :
- 1 libra, mostrando também com a mão.
 Ok, era o preço certo, comi 4. Na hora de pagar ele cobrou 8 libras.
 – Peraí, você disse que custava 1 cada!
- Não, eu disse dois...mostrando com a mão de novo. Aí que eu reparei, o cara não tinha um dos dedos na mão....ele mostrava dois mas o segundo dedo era só um toquinho, então só aparecia um, e ainda falava pelo nariz !! rsrsrsrs  Fiquei encucado... não sabia se ele tava me enrolando ... acabei pagando os 8.     
Meus dias aqui foram tranquilos, a cidade é calma mas tem um comércio bem movimentado que fica aberto até 1 hora da manhã. Assim como em todos os países muçulmanos, as mulheres nem na praia tiram as túnicas e véus que cobrem todo o corpo, é engraçado elas tomando banho com tudo aquilo de roupa.   
No Egito como em todos os países pobres de Ásia a coisa é avacalhada que nem no Brasil e tudo funciona na base da negociação. Coisas de deveriam ter perço fixo são negociáveis, como uma van que peguei em Sharm no Sinai, perguntei o valor da passagem, motorista perguntou  quanto é que eu pagava.... no guarda-volume da rodoviária do Cairo como queria deixar minha mochila só por algumas horas, negociei com o guarda pra pagar metade do preço...até no correio fui mandar uma encomenda e negociei com o cara para diminuir o valor do seguro...diárias de hotel ...até a entrada em alguns pontos turísticos rola negociação com o guarda. Quase tudo aqui é subornável,  corrompível e negociável. Os guardas lá nas pirâmides em Guiza chamam os turistas para umas tumbas onde é proibida a entrada, dizendo para eles entrarem e ganhar um trocado depois. Lugares onde é proibido bater foto, o guarda diz que libera se der uma ponta... na Índia a mesma coisa, se der algumas rúpias pro cara que não deixa ninguém bater foto das tumbas dentro do Taj Mahal, ele abre uma excessão.
Daqui vou para o sul do Egito.

As mulheres todas cobertas


Alexandre o Grande

Centro da cidade, na hora da reza

Antiga Maravilha


Cairo, 15 de junho de 2011.

Praticamente todas as magníficas construções por aqui foram feitas pelos faraós a milênios atrás. Faraó é a denominação dada aos reis que governaram o Egito na antiguidade até o século IV A.C.. Assim como os imperadores da China antiga, eles ganhavam uma conotação divina, sendo considerados filhos dos deuses.  Eles reinaram por uns 3 mil anos até entrarem em desunião e aproveitando isso, Alexandre  o Grande conquistou o poder por volta de 300 A.C..
Devido à época de baixa temporada somado ao clima de instabilidade causado pela revolução meses atrás, são poucos os turistas circulando pelo Egito. As pessoas que trabalham em ramos relacionados ao turismo estão urrando e com isso os preços caem bastante. Dá pra pechinchar pesado que os caras estão topando qualquer coisa, teve um que me puxou pra dentro de uma loja de perfumes(os egípcios têm uma grande tradição no comércio de essências) e pediu por favor que eu comprasse alguma coisa pois ele tinha família pra sustentar! Pra ajudar o cara comprei uma das essências, que são como óleos, até porque eu não usava perfume há meses, e por 3 reais....
Passei 5 dias na cidade do Cairo, a capital do país. Uma cidade muito grande, de mais 20 milhões de habitantes, que é relativamente fácil de circular. Andar de transporte público é uma das coisas que gosto para sentir mais de perto uma cidade, além de ser mais barato, claro. Assim como outros grandes países pobres que passei, o transporte urbano aqui é muito barato: ônibus a 15 centavos de real e o metrô pouco mais de 30 centavos...não entendo por que no Brasil as passagens de ônibus são tão caras, mais de 10 vezes o valor desses outros países, o nosso poder aquisitivo nem é tão alto como dos países desenvolvidos e de um modo geral a qualidade dos ônibus também está longe do padrão.
 Bem em frente à praça Tahrir está o Museu Egípcio, com um acervo de mais de 100 mil relíquias de todos os períodos do Egito antigo, sendo um dos mais significantes museus do mundo. Enormes estátuas, centenas de sarcófagos, esculturas, múmias e imagens dos deuses da mitologia egípcia. O que mais me impressionou foi sem dúvida a sala de Tutankamon, o jovem faraó que reinou dos seus 9 aos 18 anos e não teve tanta importância na história. Mas seus sarcófagos, jóias e principalmente sua máscara de ouro maciço me deixaram hipnotizados por alguns minutos.
Museu Egípcio

A máscara em ouro maciço de Tutankamon

Visitei também obviamente as famosas pirâmides de Giza, a única sobrevivente das 7 maravilhas do mundo antigo, construídas há 4.500 mil anos. A pirâmide de Quéops, conhecida como a Grande Pirâmide reinou como o mais alto monumento da terra, só perdendo o título 4 mil anos mais tarde! Elas são realmente impressionantes, milhões de blocos de pedra cada  um pesando várias toneladas, simetricamente arrumados a uma altura de até 146 metros(a Grande Pirâmide). Tudo isso para proteger o túmulo dos faraós. Assim como Machu Picchu no Peru e os Moais da Ilha de Páscoa, fiquei um tempão sentado olhando tentando imaginar como os caras fizeram aquilo...até hoje não se sabe ao certo como eles carregaram as pedras naquela época. É muito curioso isso, 4.500 anos depois, não sei se o homem seria capaz de fazer o mesmo sem a ajuda de guindastes.





 Ao lado está a esfinge, também não se sabe exatamente com que propósito ela foi feita,se sabe a esfinge é uma forma de demosntração de poder e proteção. Mas também é uma obra impressionante, de uma criatura com corpo de leão e a face humana, esculpida num bloco de rocha único. O ‘motorista’ do camelo que foi também meu guia por lá, disse que o nariz da esfinge foi tirado por Napoleão e está exposto num museu na França. Ele não sabia qual era o museu, mas quando eu chegar na França vou procurar o tal nariz...quero ver a esfige toda, mesmo que seja por partes..rsrsrsrs

Desses dias que passei aqui a maior parte do tempo foi simplesmente vendo o povo. Tanto no centro quanto na  parte antiga. Prédios muito antigos...para subir para o oitavo andar do meu albergue, usava um elevador que eu acho que é do início do século, era só uma cabine no espaço aberto, puxada pelo cabo de aço entre as escadarias. Carros muito antigos e amassados circulando nas ruas...o fiat 147 ainda está na moda por aqui....No Egito como eles também têm uma mistura de raças, muitos deles disseram que eu pareço fisicamente com egípcio. Pra diminuir a encheção de saco, eu tentei parecer mais um local, tirando os indícios de turista como mochila, chapéu, pochete, brincos e qualquer acessório diferente. Passei quase despercebido...em muitos lugares que parei para ver ou comprar alguma coisa eles ficavam me  meio desconfiados sem saber se eu era ou não egípcio. Deu pra usar mais fácil a técnica para comprar alguma coisa, principalmente comida ou bebida, pelo preço correto ...eu encosto na banca ou balcão e fico olhando quanto os caras pagam e peço o mesmo. Essa é uma das vantagens de se estar num país por um tempo, dá pra reconhecer o dinheiro de longe. Tem que fazer assim, se não ...se chegar pergundando “How much” , é quase certo do cara te falar o dobro do preço. Um outro macete que uso , é pedir para algum local perguntar o preço ou pedir pro cara comprar o que estamos querendo. Detalhe: sem o vendedor ver.
Brasileiro perder pra malandragem não dá !!!  Tive que fazer muito isso no Nepal, Índia e aqui...fica aí a dica.
Sentado num café onde as mesas ficam no meio da calçada ou da rua,  tomando um chá e fumando uma shisha, simplesmente vendo o movimento da rua, enquanto tiro o gosto com alguma semente  e lendo um livro sobre o islamismo, sinto melhor o cotidiano deles. Foi assim que escrevi esse post. Curti bastante o Cairo.  

Igreja de São Jorge na cidade velha

Tem umas horas que o Egito me faz lembrar a Índia

Cena bem comum nos cafés


Na parte antiga da cidade

Por-do-sol no rio Nilo

Kushari - 2 tipos de macarrão, arroz, lentilha e molho de tomate
um prato bem típico das ruelas do Cairo

Tive que aprender a ler os números em árabe !!